O último mourão

Bolsonaro rui numa velocidade virulenta

A saída de Moro é a senha de que a abertura do processo de impeachment de Bolsonaro virá a galope. Falta movimentar as peças PGR, STF e Congresso, mas a mudança só avança se Mourão acertar com o establishment a abertura da antecipação das eleições com Moro candidato e Lula fora do páreo.

Moro não saiu do governo por um ataque de licitude ou por surto ético. A Polícia Federal e o Tribunal sempre foram seus instrumentos de uso pessoal. Foram as ferramentas que o ascenderam ao Ministério e por pouco não o lançaram ao STF para sacramentar a exclusão de Lula da vida pública ou para permitir resultados como o caso Banestado.

Moro aproveitou a melhor janela possível para se afastar de um governo que se isola, solapado por ações intestinais – próprias e de familiares – que espalham a pestilência por onde atua. Moro é o cavalo malhadinho da elite no hipódromo, no banco de reserva, se posicionando na porteira de largada. Antes de investir para derrubar um governo, os operadores querem saber quem o substituirá. Os mesmos que se organizaram para encilhar Bolsonaro na corrida presidencial – após a recusa de Luciano Huck – querem a certeza de que um impeachment não seria pior para seus interesses e riquezas.

Mudar sem rasgar o tecido institucional

Desde a saída de Dilma Rousseff se busca manter a aparente legitimidade das instituições brasileiras que minaram as representações trabalhistas, política e sindical, da vida pública. As evidências trazidas à tona pelo The Intercept Brasil de que Moro foi para o governo após e por ter afastado Lula do pleito dificilmente serão consideradas sem a ruptura do atual tecido institucional. Neste sentido, se buscará a retirada de Bolsonaro sem abrir o flanco para questionamentos que devolvam a legitimidade à esquerda. Por isso, vislumbram dois cenários: renúncia ou impeachment. Sendo o último mais arriscado e o primeiro exequível apenas e mediante uma pressão contra Bolsonaro que ameace trazer a público os enlaces milicianos e criminosos que envolvem a família presidencial.

É nesse cenário pela renúncia que os serviços de Moro foram/são requisitados. Contudo, no governo, a atuação da Polícia Federal para descortinar os crimes dos Bolsonaros seria limitada pela prova de fidelidade ao qual são testados os ministros de Jair. Não restou, portanto, outra decisão a Moro a não ser abandonar o governo e acertar os passos da sucessão.

Rede Globo vem aí com a carga total

O próximo na linha demissionária é o gigante de pés de meia Paulo Guedes da Ministério da Economia. Em março, antes das curvas da pandemia, Guedes já ameaçava sair. Ficou, mas não tem calçado o governo com firmeza. A agenda que prende o mercado via Guedes a Bolsonaro são as ditas ‘reformas estruturantes’ para as quais, Bolsonaro, nas palavras de Guedes, servia “como escudo” nas ofensivas contra a Constituição no Congresso. Contudo, a pandemia virou a página da política econômica que Guedes e Campos Neto insistem em manter. Mas, dada a imposição da realidade, ‘as reformas estruturantes’ se transformaram num espeto de faturas a vencer. O que esvazia todo o esforço neoliberalizante e as presenças de Guedes e Campos Neto desnecessárias.

Daí a urgência da renúncia

Um impeachment lento e gradual sem Guedes na economia irá definitivamente derreter as posições de riqueza de muitos (dos poucos) bilionários no Brasil. Assim como Moro foi alçado para esmagar a esquerda, agora sua tarefa é pressionar Bolsonaro à renúncia. Em troca de quê?

É claro que ele deseja se candidatar à presidência da República com o mesmo arco de apoio que elegeu Bolsonaro. Mas esse é um exercício de risco, sem garantia, a longo prazo – a menos que as eleições fossem logo, com Lula fora do pleito.

Desta forma, e dentro da lei, o Art. 81. da Constituição poderia ser usado para manter o jogo na mão da banca.

Este projeto tem um mourão pela frente. Mourão tem a opção de manter a sustentação a Bolsonaro e pendurar “a falha na conta das Forças Armadas” (como escreveu Janio de Freitas, na Folha, 26/05), de se juntar ao impeachment e arriscar um governo num período sem apoio e, por isso, também “levar as falhas” para as FFAA ou pressionar pela renúncia e fazer a “ponte” para as eleições de Moro sem Lula.

De todo o modo, se trata do último mourão de um governo que rui numa velocidade virulenta. 

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