Bolsonaro e a revelação do desumano

Instado a escudo do mercado financeiro para promover a ruptura do Estado de bem-estar social, Bolsonaro revela-se o representante de um estrato de ricos que não se importa com nada além da própria riqueza.

Na posse de Nelson Teich, na pasta da Saúde, Bolsonaro disse: “abrir o comércio é um risco que eu corro, se agravar vai cair no meu colo”;  “70% vão pegar (o vírus), não tem como. Se não for hoje vai ser amanhã, vai ser daqui a um mês”. Ou seja, os mortos não sensibilizam o presidente da República. O mesmo se revela no discurso do oncologista, especialista em gestão de saúde, que substituiu Mandetta: “para que comprar todos esses respiradores? O que vamos fazer com eles depois?”, perguntou Teich ao se referir aos gastos para salvar vidas durante a pandemia.

Bolsonaro diante do quartel do exército, também, foi defender o golpe contra a democracia: o fechamento dos poderes legislativos e judiciários. Ele age no esteio de um grupo de ricos e de remediados da classe média – candidatos a ricos – que não se comovem com a morte de milhares de pessoas por conta do novo coronavírus. Estão desagradados com a interrupção da circulação das pessoas devido à quarenta e ao isolamento social impostos pelos governadores de estados.

Os bolsonaristas exigem que os trabalhadores voltem aos postos de trabalho para manter os empregos e se iludem que os consumidores irão voltar a lhes garantir o movimento mesmo durante a pandemia (sem entrar no mérito dos horrores que assistiremos nas próximas semanas, com as UTI’s e os cemitérios lotados, é notório o surto psicótico e narcisista em que se acomodam).

A ‘deselite’ brasileira e seu desprezo pela vida

O resumo do desprezo pela vida está em gráfico, acima, apresentado pelo presidente do Banco Central Roberto Campos Neto a investidores da XP. O gráfico chocou até diretores da XP pela presunção assumida que uma epidemia mais rápida e violenta seria melhor para a retomada econômica. Até o pessoal da XP teve dificuldades para entender o que Campos Neto defendeu. Ao final da fala dele, o economista-chefe da XP, Marco Ross, contra-argumentou. “Para mim, não é claro que uma restrição [de circulação] mais forte é naturalmente mais deletéria para a economia. Inclusive, uma restrição parcial, seja ela o que for – a gente não sabe o que é uma restrição parcial – pode também ter um efeito econômico negativo, de aumentar o contágio e se ter que de repente se abortar o plano, voltar para uma quarentena”,  disse.

O sincericídio de Ross está dentro do Stress Test medido pelo mercado em cada operação, pois a XP se tornou a principal interlocutora do poder público. Paga em peso de ouro para ouvir o que autoridades do Estado Brasileiro não falam para a imprensa, nem para os cidadãos. Dentre os bem aquinhoados pela gestora de fundos está Paulo Guedes que, em um entrevista de 1h30, foi explícito ao falar que Bolsonaro “faz o escudo” que o mercado precisa para tocar as “reformas estruturantes”. Traduzindo: o mercado conta com Bolsonaro para “destruir” o Estado de Bem-Estar Social transcrito na atual Constituição.

Contudo, os próprios ricos perceberam que não dá para se fiar num homem tão psicopata quanto Bolsonaro e chamaram o exército para dar suporte ao governo mentalmente enfermo. O ministro-chefe da Casa Civil, General-de-Exército Braga Neto, assumia um novo papel na política, como a continuidade de seu último cargo, o de Chefe do Estado-Maior do Comando de Exército.

Ou seja, Bolsonaro é apenas uma moldura no poder da elite sobre os rumos da nação. E parte dessa elite está inconformada com a interrupção dos seus propósitos devido ao isolamento social. Daí irem para o confronto ignóbil com a natureza biológica e chamarem as pessoas para se contaminarem voluntariamente. O projeto chamado Imunidade de Rebanho, se levado a cabo, contaminará 120 milhões de brasileiros e levará para leitos de UTI, pelo menos, um milhão de pessoas, das quais, no mínimo, 200 mil irão morrer. Essa desumanidade tem como distopia a ideia da rápida recuperação da economia.

Contudo, as empresas, os veículos, as dependências, os galpöes, os edifícios contaminados não serão mais úteis para o capital. É uma ilusão que possam vencer a guerra contra o coronavírus matando os brasileiros. O número de mortos, o luto, o colapso hospitalar e funerário vão criar uma realidade que o gráfico desta ‘deselite’ nunca imaginou considerar.

Os brasileiros vão se recuperar. Com ou sem a tal ‘deselite’*.

*O termo elite não deve ser empregado em os piores da espécie humana.

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